quinta-feira, 12 de setembro de 2013

Sem título.

O sono escasseia e as ideias passam a correr.
Não tenho grande sentido a dar às palavras que fluem desde a cabeça até à ponta dos dedos. Elas saem e hão-de dar sentido a elas mesmas. Sempre foi assim. Sempre me parece, depois, que não tinha sido escrito por mim.
A música que faz cada partícula de ar vibrar, entra-me pelos ouvidos, sem tomar grande sentido, sem surtir grande efeito. Não provoca qualquer reacção. Não se canta, não se assobia, não se faz nada.
Continuo a procurar um sentido para estas palavras, mas não encontro. Por muito que queira.
Um dia as ideias que me passaram da ponta dos dedos para o ecrã hão-de sair. Não agora, um dia.

Chego ao ponto em que me estou a cagar para isto. Há-de fazer sentido, algum dia. Não agora. 

Boa noite, vou dormir.

quinta-feira, 5 de setembro de 2013

Pó.


Directamente do baú. cheia de pó...

Tirana.

O que me assusta no cancro não é a morte anunciada, quando o caso é terminal. O que me assusta é o sofrimento que traz. A quem padece, como a quem acompanha.

A minha avó, a chorar a morte do filho, sussurrava "doença tirana". 
Acho pouco. É uma doença filha da puta.


sexta-feira, 9 de agosto de 2013

Lisboa.


A revirar no baú, encontrei esta. É da mesma sequência da que está no topo do blogue.

terça-feira, 6 de agosto de 2013

Faroeste.

Havia um puto que vivia numa qualquer aldeia à beira d'um deserto. Esse puto não batia bem da mona. Nem um bocadinho.
As pessoas das redondezas já sabiam com o que contar, já sabiam que tinham de atravessar para o outro lado da rua quando o vissem, já sabiam que vinham problemas a descer a rua.


Lembro-me como se fosse ontem, cheguei àquela pequena aldeia, onde custava respirar, de tão seco que o ar era. As casas quase que se contavam pelos dedos, haviam de ser pouco mais que trinta, um posto de correio, uma pequena mercearia e o casebre do xerife. Havia um poço lá pelo meio. Todas essas casas davam um aspecto de avenida à única rua que compunha a aldeia. À volta, a paisagem árida, nuns tons esbranquiçados por causa do sal que sobrara do antigo lago que secou, ainda fazia a respiração pesar mais.
Eu, novato naquelas andanças, transpirava em bico. A cera do cabelo já descia a testa, misturada no suor, e queimava nos olhos.
Ouvia os poucos habitantes a bisbilhotar sobre o novo habitante. Olhavam-me de lado, como se fosse um enviado do diabo. Pobre de mim, que estava ali apenas para ver se encontrava algum vestígio dos dinossauros que por ali tinham andado há milhões de anos. Avizinhava-se uma fase fodida na minha vida.

Já lá andava há umas semanas, e já tinha descoberto três zonas que podíamos vir a escavar. Afinal as coisas corriam melhor do alguma vez tivera pensado.
Lembro-me que ia para casa, o sol já se estava a esconder. Via-se um céu alaranjado, e a lanterna que levava na mão alumiava o chão à minha frente. Viam-se uns cinco metros, não mais que isso. Comecei a ouvir uns passos que se aproximavam. Não levantei a luz para ver quem era, porque é má educação apontar luz à cara das pessoas. Devia tê-lo feito. Choquei ombro com ombro num gajo qualquer, ambos vira-mo-nos para as nossas esquerdas e fita-mo-nos olhos nos olhos. O cabrão.
Continuei a andar. Comecei a aperceber-me que ele não. Voltei a olhar, e ele continuava parado a olhar para mim. O cabrão.
No dia seguinte, na casa de um vizinho, que servia de taberna, comentei o que aconteceu, e logo os dois velhotes que lá estavam levantaram a cabeça e ficaram a olhar-me. Não estava a perceber. Falaram-me do puto. Do ressentimento que acartava. Da história que o perseguia. Não era bonita.
Não imaginava a quantidade de problemas que a porra da boa educação me ia trazer. Devia ter levantado a merda da luz. Fuck...

(Até pode ser o inicio de uma história porreira, mas para já não me apetece escrever mais...)

A melhor teoria.

Pode não ser a melhor teoria de sempre, mas foi a que mereceu mais atenção por parte de quem visita o blogue.
Falo da teoria do Fiat 500.

Explicável.

Isto tem estado inexplicavelmente parado. Inexplicavelmente.
Tem havido tanto de novo. Tem havido muitas coisas absolutamente anormais a passar-se. Tanto que o anormal tornou-se numa coisa normal.
Fosse eu um artista e tinha pintado uns quantos quadros ou escrito um grande livro, com a infinidade de coisas que me passam pela frente.

Tá reaberto.

quinta-feira, 20 de setembro de 2012

"A arte de ser terceirense", de Victor Rui Dores.


Um dia saí da Terceira, mas a Terceira não saiu de mim. Gosto incondicionalmente desta ilha, porque foi aqui que dei os passos decisivos da minha vida.
A Terceira é muito mais do que o Monte Brasil, o Castelo de S. João Baptista, o Algar de Carvão, a Serra do Cume, a Base das Lajes, o jardim Público de Angra de Heroísmo ou o vasto areal da Praia da Vitória. Esta ilha não é só a alcatra, a belíssima doçaria conventual ou o delicioso vinho dos Biscoitos. A Terceira é um estado de espírito, um modo de ser, um sentimento. Talvez de amor. Porventura de paixão. Certamente de afeto.
O terceirense cultiva a alegria, é acolhedor e comunicativo, vibrante e afável, sincero e solidário. Ele é a sentinela de atalaia ao seu passado histórico e heróico, revelando um pátrio amor à sua ilha. E é óbvio: o terceirense orgulha-se da sua "muito nobre, leal e sempre constante cidade de Angra", de cunho senhorial e bela traça renascentista, duas vezes capital do Reino, porque aqui já foi só Portugal: na resistência ao domínio filipino, e durante as lutas liberais. Hoje Angra do Heroísmo é património mundial e capital histórica e cultural dos Açores.
Contrariamente ao micaelense, mais afeito à tristeza dos romeiros da Quaresma ou à carga penitencial do culto de Santo Cristo, o temperamento do terceirense é lúdico e dionisíaco.
Com efeito, não conheço povo mais exuberante, festivo e festeiro. A sociabilidade é, na Terceira, uma arte com refinado estilo. O terceirense atira-se de alma e coração ao convívio. Mais do que qualquer outro açoriano, ele tem um espírito festivo. E a alma da Terceira encontrou no toiro embolado e amarrado pelo pescoço o pretexto para a festa, sobretudo o 5º toiro... Sim, a tourada à corda é a festa coletiva da ilha Terceira e é o espaço de todas as conversas, de todos os afetos e de todos os reencontros.
Quem é da Terceira faz a festa não para a interpretar, mas para a viver. Identifica-se incondicionalmente com a festa taurina (touradas de corda, de praça e "espera de gado"), e com as festividades do povo e para o povo: as festas do Espírito Santo, o despique das cantorias, a comicidade hilariante dos bailinhos de Carnaval, o frémito das Sanjoaninas e das Festas da Praia e tudo o que sejam eventos religiosos e profanos. O que ele quer é festa porque a festa está-lhe na alma e corre-lhe nas veias. E o seu amor é "firme e constante", como diz a moda regional. Gosta de música e de teatro popular e, entre folias e folgas, prefere as folgas...
De resto, a Terceira, ilha agropecuária, é a hospitalidade da porta aberta e luz acesa - a casa aonde chego, vou abrindo e entrando: "Dão licença"? Resposta: "É entrar p´ra dentro". Como eu gosto e me identifico com esta brava gente da fraterna simpatia: os Andrades, os Barcelos, os Bettencourts, os Bretões, os Borbas, os Borges, os Coelhos, os Cotas, os Coutos, os Drummonds, os Fagundes, os Fourniers, os Godinhos, os Linhares, os Machados, os Martins, os Mendes, os Menezes, os Monjardinos, os Noronhas, os Pamplonas, os Pains, os Parreiras, os Regos, os Rochas, os Sieuves, os Silvas, os Sousas, os Valadões, os Vieiras, entre muitas outras famílias terceirenses.


Como eu gosto e me identifico com esta brava gente da fraterna simpatia
Mas o "rabo torto" também tem lá as suas artimanhas: é pagão quando lhe interessa e religioso quando lhe dá jeito... No seu estudo "O Açoriano e os Açores" (1), escreve Vitorino Nemésio: "O que no micaelense é aspereza, índole tenaz mas tosca, no terceirense é amenidade, alguma manha, e principalmente uma bizarria que trai a coabitação com o castelhano durante meia centúria". Ou seja, o terceirense tem as qualidades dos seus defeitos...
Dotado dessa "bizarria", o terceirense é galante, tem um jeito marialva e resquícios de alguma nobreza perdida. Um ditado açoriano muito antigo assim reza: "S. Miguel, burgueses ricos; Terceira, fidalgos pobres; Faial, contrabandistas espertos".
E as terceirenses? São afoitas e literalmente bonitas, aliás, a Terceira tem justa fama de possuir as mulheres mais belas dos Açores. É discutível, mas é verdade. No Verão de 1924, tirando notas para o seu magnífico livro As Ilhas Desconhecidas (2), Raul Brandão fala da beleza da mulher terceirense nos seguintes termos: "Foi aqui que vi as mais lindas figuras de mulheres dos Açores - tipos peninsulares, de cabelos negros e olhos negros retintos".
(Vai para 40 anos que também eu, na "ilha de Jesus", me apaixonei por uns olhos negros, negros...).
Posso estar muito enganado, mas sinceramente continuo a achar que o melhor que a Terceira tem são os terceirenses.


                                                                        
(1)   Sob os Signos de Agora, Imprensa Nacional - Casa da Moeda, 1995.
(2)   Edição de Artes e Letras, Nova Gráfica, 2009.
por: Victor Rui Dores

quinta-feira, 23 de agosto de 2012

Sem título.

Com toda a certeza que fazemos regularmente descobertas bastante úteis para o futuro.

A minha hoje foi de que numa tourada à corda o importante não é correr mais do que o touro, é correr mais do que o gajo que vai ao lado.

quarta-feira, 15 de agosto de 2012

Bang.

De uma coisa não tenho dúvidas. Quanto mais bonito se parece, mais feio pode ficar.
Falando curriqueiramente, quanto mais alto, maior o tombo; quanto "mais grande", maior a queda.
Não dúvido que seja muito bom estar no meio do oceano com tempo calmo, mas haverão sempre mares revoltos.

Não escrevi isto com nenhum intuito em especial, apenas com o medo de que quanto melhor correm as coisas, pior será se começarem a correr mal.

E pelo que sei, aplica-se a tudo.

BTW, já passei as 10.000 visitas. Obrigado.