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sexta-feira, 14 de novembro de 2014

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Curiosamente, nada disso lhe tinha alguma vez passado pela cabeça. Sentia-se como um puto de 14 anos a quem tinham dado uma playstation. Ou como um puto de 16 que vai pela primeira vez a uma discoteca. Deslumbrado. Embasbacado. Babado.

Já não existia nada daquilo, pensou. Já não pensava existir nada daquilo. Não era suposto, num mundo corrompido, existirem sentimentos tão puros, tão transparentes e desapegados.

quinta-feira, 3 de julho de 2014

Divagação.

Deparando-se com aquele cenário dantesco, saltou. Um salto para o abismo. Seria sempre melhor que ter a alma sugada pelos demónios que por ali pairavam. Seria, ao menos, um final decente, um fim com paz.

Nos breves momentos em que voou, enquanto caia na direcção das rochas pontiagudas que lá em baixo apontavam ao céu, pensou em tudo o que tinha sido. Pensou quanto mais poderia ter feito, quanto mais poderia ter vivido. Mas era tarde, demasiado tarde. O destino estava traçado e tudo caminhava a passos largos para o fim. Caminhava não, voava. As pedras estavam a ficar tão perto que conseguia distinguir os vários tons de preto que as compunham. E tantos que eram.

Subitamente tudo acabou, tudo chegou ao fim. Enquanto o sangue escorria pelo corpo abaixo, os demónios gritavam desesperadamente pela alma que não tinham conseguido apanhar. Pelo meio, um momento de quase silêncio, onde só se ouviam os pingos de sangue a bater no chão e os uivos distantes dos demónios desalmados à procura de quem mais levar.

quinta-feira, 1 de maio de 2014

Esther.

Esther sempre se habituara a estar sozinha, desde pequena que via os pais a sair de manhã e a voltar depois do sol posto. Desde cedo que aprendera a desenrascar-se. Na escola, onde foi só meia-dúzia de vezes, nunca conseguira fazer amigos, nunca se sentira próxima com alguém. Era demasiado diferente, não era como os outros.

Nunca se tinha interessado por fazer amizade com ninguém, preferia o seu recanto, a sua paz. Mal sabia que assim devia ter sido, sempre. Mal sabia que devia ter ficado em casa naquela sexta-feira.

Numa sexta-feira qualquer, Esther saiu de casa, de mochila às costas, como sempre fazia. Desceu a calçada até à praça e passou pelas mesmas lojas e pelas mesmas pessoas de sempre. Aliás, eram quase todas as de sempre. Havia uma nova loja, com uma nova pessoa. Uma loja de velharias. Parou curiosa a olhar para a montra, e viu lá no fundo um rosto agradável, sorridente. Sentiu-se estranha, sentiu que tinha de entrar. Entrou.
Pegou na primeira peça que viu e dirigiu-se ao simpático sorriso para perguntar o preço. As palavras não saíram. Sentiu um calor a subir-lhe pelo peito. Nunca sentira nada parecido.
Deixou o vaso velho em cima do balcão, e saiu apressadamente, deixando o rapaz surpreendido a olhá-la.

Voltou lá, dia após dia, sempre com o mesmo fim e sempre com o mesmo resultado. Até que um dia foi ele a falar.

terça-feira, 29 de abril de 2014

Istambul.

Ele agarrou-a pela mão e sorriu. Ela entendeu logo, era o momento. Correram desenfreadamente por entre as pessoas que pelo mercado deambulavam. Como duas crianças que tivessem roubado maçãs na banca da fruta. Ele olhava para trás, com o braço esticado a puxá-la. Sorriam estupidamente. Sorriam de orelha a orelha. Estavam felizes até às entranhas.

Por pouco não se atrasaram. O pôr-do-sol da cidade era lindo. Istambul é linda, e tem o pôr-do-sol mais exótico possível, por entre as torres das mesquitas, o sol - já uma bola alaranjada - desce e deixa no céu um rasto de cores de cortar a respiração.
Assim o viram, ele com o braço por cima dela, ela com a cabeça acomodada nele. Em silêncio. Junto a tantos outros que daquele jardim apreciavam a beleza do momento. Em silêncio. Sem nada precisar de ser dito.

A meia hora que durou, passou num instante. Esvaiam-se os últimos raios de sol e ela olhou-o timidamente, como quem deseja mas não pode. Pensou que seria para sempre.
Ele sentiu também que seria para sempre, e apertou-a contra si. E ali ficaram, até a lua estar bem no alto. Sempre em silêncio. Um silêncio que se compreendia. O momento era bonito, e teriam para sempre para falar.

domingo, 30 de março de 2014

Teria...

Calmamente repousou sobre a folha cheia de orvalho.
Com a vibração toda a água escorreu, e fluiu pelo caule abaixo, espalhado-se pelo chão.
A pequena formiga olhou para cima, e por entre os raios de sol viu a beleza da borboleta.

Nunca uma formiga tinha ousado falar com algum insecto de outra espécie, era proibido. Aliás, apenas uma vez tinha acontecido, quando uma das pequenas formigas tinha implorado para que o gafanhoto não a comesse. Quebrou o voto de silêncio, teve de morrer. Ninguém pode saber que falam.

A formiga subiu timidamente o caule, meio ofuscada pela beleza exuberante da vistosa borboleta.

-Tu, tu és nova aqui? - perguntou timidamente.

A borboleta olhou assustada e nada disse.

-Podes responder que não te faço mal. - acrescentou.

-Sou, venho do norte e vou em direcção a sul. A neve está a chegar e nós não fomos feitas para ela.

-Fazem bem. Nunca vi uma criatura tão bonita. Existem mais como tu? - falou a borboleta.

-Somos muitas. Mais que possas imaginar. Às vezes, quando voamos juntas, parecemos nuvens...

-Eu nunca saí daqui. Como é voar, como são os outros lugares? - perguntou a visivelmente apaixonada formiga.

-Anda cá, mostro-te.

A pequena formiga, subiu para as costas da borboleta. E a borboleta começou a voar.
O movimento gracioso das grandes asas começou a abrandar. Começaram a descer.

-O que se passa? - perguntou a formiga.

Nem uma palavra.

-O que se passa? Estamos a cair! - gritou aflita.

Nada.

Caíram com um estrondo, imperceptível tal era a sua pequena insignificância.
A formiga abriu lentamente os olhos. Estava rodeada de outras pequenas formigas.

Tinham abatido a borboleta. Ninguém podia saber que falavam. Ninguém.

Iria morrer também.
Teria sido uma bonita história de amor.

Teria...


terça-feira, 25 de março de 2014

Romace's not dead.

Lembrando a célebre frase "Punk's not dead".

Fodasse, o romance não está morto. Não pode morrer. Nós apenas nos acomodamos. "Emperguiçamo-nos". Comigo é assim, mas apesar de tudo gosto de ser romântico. Nem que seja em relação à vida.

Vamos por partes.

Tenho uma visão muito romântica da vida. Tudo pode ser bom, tudo pode ser um poema. Escusado será dizer que levo sucessivos murros no estômago, cada vez que tenho de cair na real e aperceber-me que no final todos morremos. É justo dizer que não podemos ser românticos em relação à vida. Aqui o romance morreu.

Relativamente à outra face do ser romântico, julgo que é senso comum associar romance a amor. O amor implica romance. Se não implica para que a chama do amor se acenda, pelo menos tem que implicar para manter a chama acesa. O romance resguarda o amor. O romance protege-o. Não pode morrer.

Uma flor apanhada num jardim a caminho da casa dela ou um ramo comprado antes do encontro. Duas tostas para jantarem juntos a ver a lua no jardim ou uma refeição a dois no terraço do melhor restaurante da cidade. Um passeio ao final da tarde pela beira-mar ou uma viagem a Paris no fim-de-semana. Extremos opostos que significam o mesmo. O romance não morre.

Todos somos românticos, nalguma circunstância.
Quem nunca foi, atire a primeira pedra.

segunda-feira, 14 de outubro de 2013

Vocês sabem lá.

Vocês sabem lá o que é o amor. Eu também não sei. Mas já o vi, disso tenho a certeza. Não sei o que é o amor, mas sei que já o vi.

Assisti ao amor dos dois lado. Do lado A e do lado B. Metade em Angra, metade em casa. Metade do avô, metade da avó.
Achava que sabia o que era o amor, o que era gostar de alguém, o que era ter saudades. Não sei. Nem um pouco.
Amor é ter saudade por estar a 20km e não saber como o outro está. E chorar por isso. Depois de 54 anos de casamento.
Amor é não ter vergonha de contar que chorou quando a meio da noite estendeu a mão e a outra metade da cama estava vazia.
Amor é pensar no outro quando não se tem forças para pensar em si.
Amor é isso. E não sabia. Aliás, ainda não sei. Mas já vi como é. É ver alguém todos os dias durante meio século e ficar com saudades por estar longe um dia.

Um dia quero saber. Daqui a 50 anos.

Vocês sabem lá...
Eu também não.

quinta-feira, 12 de setembro de 2013

Sem título.

O sono escasseia e as ideias passam a correr.
Não tenho grande sentido a dar às palavras que fluem desde a cabeça até à ponta dos dedos. Elas saem e hão-de dar sentido a elas mesmas. Sempre foi assim. Sempre me parece, depois, que não tinha sido escrito por mim.
A música que faz cada partícula de ar vibrar, entra-me pelos ouvidos, sem tomar grande sentido, sem surtir grande efeito. Não provoca qualquer reacção. Não se canta, não se assobia, não se faz nada.
Continuo a procurar um sentido para estas palavras, mas não encontro. Por muito que queira.
Um dia as ideias que me passaram da ponta dos dedos para o ecrã hão-de sair. Não agora, um dia.

Chego ao ponto em que me estou a cagar para isto. Há-de fazer sentido, algum dia. Não agora. 

Boa noite, vou dormir.

terça-feira, 6 de agosto de 2013

Faroeste.

Havia um puto que vivia numa qualquer aldeia à beira d'um deserto. Esse puto não batia bem da mona. Nem um bocadinho.
As pessoas das redondezas já sabiam com o que contar, já sabiam que tinham de atravessar para o outro lado da rua quando o vissem, já sabiam que vinham problemas a descer a rua.


Lembro-me como se fosse ontem, cheguei àquela pequena aldeia, onde custava respirar, de tão seco que o ar era. As casas quase que se contavam pelos dedos, haviam de ser pouco mais que trinta, um posto de correio, uma pequena mercearia e o casebre do xerife. Havia um poço lá pelo meio. Todas essas casas davam um aspecto de avenida à única rua que compunha a aldeia. À volta, a paisagem árida, nuns tons esbranquiçados por causa do sal que sobrara do antigo lago que secou, ainda fazia a respiração pesar mais.
Eu, novato naquelas andanças, transpirava em bico. A cera do cabelo já descia a testa, misturada no suor, e queimava nos olhos.
Ouvia os poucos habitantes a bisbilhotar sobre o novo habitante. Olhavam-me de lado, como se fosse um enviado do diabo. Pobre de mim, que estava ali apenas para ver se encontrava algum vestígio dos dinossauros que por ali tinham andado há milhões de anos. Avizinhava-se uma fase fodida na minha vida.

Já lá andava há umas semanas, e já tinha descoberto três zonas que podíamos vir a escavar. Afinal as coisas corriam melhor do alguma vez tivera pensado.
Lembro-me que ia para casa, o sol já se estava a esconder. Via-se um céu alaranjado, e a lanterna que levava na mão alumiava o chão à minha frente. Viam-se uns cinco metros, não mais que isso. Comecei a ouvir uns passos que se aproximavam. Não levantei a luz para ver quem era, porque é má educação apontar luz à cara das pessoas. Devia tê-lo feito. Choquei ombro com ombro num gajo qualquer, ambos vira-mo-nos para as nossas esquerdas e fita-mo-nos olhos nos olhos. O cabrão.
Continuei a andar. Comecei a aperceber-me que ele não. Voltei a olhar, e ele continuava parado a olhar para mim. O cabrão.
No dia seguinte, na casa de um vizinho, que servia de taberna, comentei o que aconteceu, e logo os dois velhotes que lá estavam levantaram a cabeça e ficaram a olhar-me. Não estava a perceber. Falaram-me do puto. Do ressentimento que acartava. Da história que o perseguia. Não era bonita.
Não imaginava a quantidade de problemas que a porra da boa educação me ia trazer. Devia ter levantado a merda da luz. Fuck...

(Até pode ser o inicio de uma história porreira, mas para já não me apetece escrever mais...)

sexta-feira, 13 de abril de 2012

Quinta-feira 5.

Podia ter sido uma quinta-feira 5, um domingo 28 ou uma segunda-feira 1. Foi uma sexta-feira 13. Um raio de uma sexta-feira 13. Não sou particularmente supersticioso relativamente às sextas-feira 13. Vejamos: se fosse mesmo dia de azar para todos teríamos um autêntico armagedão. O dia que seria de azar para o piloto do avião tornar-se-ia o dia de azar para todos os que lá estivessem dentro. O dia de azar do Bono Vox seria o dia de azar das 70 mil pessoas que pagaram o bilhete. O meu dia de azar seria o dia de sorte daqueles brownies que tenho escondidos na gaveta. É uma questão de perspectiva. Voltando à minha sexta-feira 13, tive um dia de merda (não costumo usar este adjectivo, mas acho que neste caso qualifica bem o meu dia). No menu que me calhou hoje tive para entrada um atraso a chegar ao trabalho, para beber uma discussão, para prato principal tive o facto de ter falhado duas soldaduras no mesmo aparelho (acabei por deixá-lo para segunda-feira... desta vez quem vergou fui eu, e não o arame...), e para sobremesa veio uma tacinha cheia de chuva, que chegou à mesa mesmo quando ia sair (lá se foi a corrida de final de tarde...e o café logo à noite...). Mas nem tudo é mau. Parece que os brownies também vão ter um bocado de azar hoje. E os que sobreviverem vão ter um péssimo sábado 14.

Espelho da alma.

Consoante avançava pela rua sombria e estreita, murmurava "estou quase em casa, estou quase em casa, estou quase em casa..." inquietantemente. Um passo atrás do outro. Um passo à frente do outro. Cada vez que um qualquer barulho ecoava por entre os prédios altos que aconchegavam a rua por onde passava, o coração parava por um milésimo de segundo, e todos os medos emergiam (os bandidos, os que não são bandidos mas também são más pessoas, os bichos-papões, os cães raivosos, o escuro, o facto de estar ali sozinho), fazendo com que o caminho ficasse mais longo a cada passada. Por entre o fumo que sai dos ventiladores dos bares e do metro, vislumbra um vulto. Um vulto que é grande. Um vulto que passa a ser enorme. Um vulto que se torna gigante. Um vulto que absorve toda a luz da ruela e eclipsa tudo, por breves momentos. Paralisa com medo. O vulto passa por ele como se ali não estivesse. À medida que os som dos passos dados pelo vulto se vai afastando, ele vai recuperando a capacidade de se mexer. Apressa-se. Chega a casa. Em casa está mais seguro: não existem recantos escuros, há luz em abundância, não existem pessoas más nem papões, não existem cães. Sobra apenas um medo: o facto de estar ali sozinho. Sobra apenas um medo: o pensamento de que um dia poderá morrer sozinho.

terça-feira, 10 de abril de 2012

Bah.

Apetece-me escrever. Mas não me apetece escrever nada em concreto... O porquê disto é muito fácil de explicar. Vejamos: a faculdade continua na mesma (não é bem faculdade, é estágio... mas continua em velocidade cruzeiro...), o Benfica continua a dar-me alegrias e dores de cabeça (esta inconstância faz com que seja extremamente difícil escrever alguma coisa sem que corra o risco de me tornar incoerente na semana a seguir...), as histórias que esporadicamente escrevia teimam em não aparecer (tenho a mente tão poluída com o que se passa nas séries que tenho visto, que não aparece uma única ideia que valha a pena aproveitar... daí ter voltado a ler bons livros...), a pesca não vai andando de todo (o que eu não dava para amanhã poder ir mandar uns tiros nuns peixes...). Vão valendo os passeios por Lisboa e as mil e uma formas que arranjo para matar o tempo. (Agora que acabei de escrever este texto sem nexo, noto um uso estúpido e excessivo de reticências. Nevermind...)

sexta-feira, 16 de março de 2012

Chuva.

Por entre os raios que caiam do céu, corria desenfreadamente contornando as poças que lhe apareciam diante dos pés. Fazia tempo que não chovia. Já tinha passado uma eternidade desde que chovera daquela maneira. As ruas eram ribeiros. As avenidas rios. As praças lagos. Finalmente abrigou-se num toldo de uma loja consumida pelo tempo, onde já ninguém ia. O odor húmido que saia pela estreita porta fazia com que a respiração se tornasse pesada e ofegante. Por entre o barulho ensurdecedor das gotas de chuva que caiam nos carros ouviu uma voz tímida dizer "pode entrar se quiser, cá dentro está mais quentinho". Entrou e, enquanto os seus olhos se acostumavam à escuridão que preenchia a pequena loja, tentou encontrar um sitio para pousar a mala que trazia consigo. Aproximou-se dele um velhote. Franzinho, com os seus poucos cabelos desguedelhados, camisola azul de lã tricotada há muito tempo e com uns óculinhos redondos pendurados na ponta do nariz. Qual avô, perguntou carinhosamente se estava tudo bem. O miúdo que acabara de chegar responde com um aceno de cabeça e com um sorriso, enquanto agarra a toalha que o anfitrião lhe estendia. Enxugou o cabelo e a face e ajeitou-se. Só então começou a olhar à sua volta: estava na oficina de um velho chapeleiro. Os chapéus de todas as cores e feitios pendurados por toda a parte denunciavam a arte do ancião, e o pó e o cheiro que por lá abundavam mostravam que não havia já quem apreciasse tal obra. Vendo o convidado tão pouco à vontade, o velho lisboeta disse "Não precisas ficar incomodado, nem precisas de ficar a fazer-me companhia por teres pena de mim. Convidei-te a entrar para te ajudar, não para que me ajudasses a mim. Estou velho e ultrapassado, tal como tudo o que aqui está dentro, já não me ligam nem ao que eu faço, e eu, sinceramente, também já não sei se me importo. O tempo passa e as pessoas vão ficando de lado, vão passando de moda, tal como os meus chapéus. São deixados de parte. Antes, quando vinha para aqui com o meu avô e com o meu pai, aprender a fazer chapéus, a rua estava cheia de gente a passear e ás compras, e de putos a jogar à bola, mas hoje, só vês pessoas de mapa e garrafa de água na mão, com as caras queimadas e com olhar de perdido. Por isso não te aflijas, não te sintas incomodado, se não ficares aqui já estou habituado a ficar sozinho". Com o olhar mais sério do mundo, com as lágrimas a brilhar no canto do olho, e com um nó no estômago, consegue apenas expelir uns sons tímidos: "Tenho muita pena que assim seja". O velho, com um sorriso triste diz "Parece que parou de chover" e vê-o ir-se embora de mala na mão. Semanas passaram até que o jovem que tinha corrido na chuva voltasse a ter coragem para se confrontar com o que tinha acontecido, e mal o fez deixou-se cair angustiado: como fora frio ao ponto de deixar ali aquela pobre alma sem mais ninguém no mundo? Pegou na mala, falou com o manda-chuva e correu: o tempo escasseava! Chegado à porta onde meses antes tinha sido convidado a entrar, nota que já lá não estão os chapéus, nem o pó, nem o cheiro a humidade, nem o velhote. Estão agora caixas e prateleiras, vai-se tornar numa loja de outra coisa qualquer, talvez numa loja do chinês, não voltará a ter a magia que outrora tivera. Foi tarde de mais.

segunda-feira, 30 de janeiro de 2012

Fiat 500.


É o carro das mulheres. Digo mais, é o carro das mulheres bonitas. Vou tentar explicar a teoria.
O discurso, ao contrario do que normalmente acontece, vai parecer um pouco agressivo, machista e, se calhar, desrespeitoso, e isso porque é um discurso um pouco agressivo, machista e, se calhar, desrespeitoso.

Ora bem, um estudo cientifico (feito por mim e mais alguns amigos meus) observou uma amostra considerável (alguns de nós afirmam ser quase 200 carros/mulheres enquanto os outros dizem que estamos a contar os mesmos carros duas vezes e possivelmente nem temos uma amostra de 100 pares Fiat 500/mulher) da espécie em questão (parelha de Fiat 500 com a respectiva condutora) e chegou-se à conclusão de que em 90% dos casos temos uma mulher bonita e extremamente atraente atrás do volante, concluindo-se assim que o Fiat 500 é o carro das mulheres bonitas.
Não quer isto dizer que não hajam mulheres bonitas a conduzir outros carros, temos, por exemplo, o New Beetle, o Citroen C3 e, mais recentemente, o Audi A1 (que é um carro um bocado estranho, pois parece qualquer coisa nascida de uma relação de um Fiat 500, a mulher da relação, com um Audi A3, o homem, e que no fim a custódia da foi para a Audi...). Há mulheres bonitas a conduzir esses carros, mas por favor... se for uma rapariga e conduzir um Fiat 500 há 90% de probabilidade de ser bonita e fisicamente atraente.
Tenho a certeza que grande parte dos homens já tinha falado ou sequer pensado nisto, dai ter surgido a necessidade deste importantíssimo estudo cientifico.
Outra coisa que se notou durante o estudo foi que, ao que parece, os pombos também acham o carro extremamente apelativo.

Meninas, conduzam com cuidado, não me estraguem a estatística.

sexta-feira, 27 de janeiro de 2012

Exames.

Já escrevi sobre os exames mais do que uma vez. Quando tenho que estar a estudar apetece-me escrever sobre a razão porque devia estar a estudar (maldito cérebro, que não consegue definir prioridades...).
Na época de exames ocorre sempre um fenómeno paranormal: surgem mil novos interesses, aparecem duas mil novas músicas, caem do céu três mil sites que "tenho que ver agora", emergem... vá, já perceberam...
Ontem, após o exame, decidi tirar o resto do dia para descansar. Não me apeteceu fazer nada. Não me apetecia jogar, não me apetecia ler, não me apetecia ver nenhum filme, até fui para a cama sem estar com sono. Hoje que devia estar a estudar, apetece-me jogar, escrever no blogue e até ler os artigos mais chatos que vão publicando no facebook. Já fiz brownies, já arrumei o quarto, já fui dar uma volta, já arranjei e continuo a arranjar todas as coisas possíveis para adiar o estudo, mas lá no fundo sei que vão-se esgotar as ideias e eventualmente vou ter que começar a estudar, é sempre assim.
Damn.

terça-feira, 24 de janeiro de 2012

Mega treta.

Que os americanos tem a mania que mandam no mundo já eu sabia, mas nunca liguei muito a isso, mas agora passaram da mania ás acções.
Invadiram um punhado de países com a mania que iam levar a liberdade ao povo e a gente até engoliu, afinal mesmo sabendo que era por causa de petróleo e por causa de financiar a máquina industrial de guerra americana a cantiga do "levar a liberdade" até caia bem no ouvido. Fizeram isso e tudo bem, meia dúzia de países revoltaram-se, atiraram umas pedras e uns sapatos, gritaram na rua e pintaram numas paredes.
Agora sem guerras para travar (não por falta de candidatos a próximo país invadido, apenas porque é um momento delicado para começarem outra guerra...), os americanos ficaram com fome de criar transtorno a alguém. Qual a solução? SOPA.
A primeira baixa dessa guerra foi o site Megaupload, e, para que se tenha noção, a baixa que o Megaupload é para o país que é a Internet é comparável à baixa que seria, por exemplo, a cidade de S. Francisco para os americanos.
Podem invadir os paises que quiserem, podem dar cabo da economia, podem voltar a eleger um Bush, mas não dêem cabo do site que me fornece as séries online.

quinta-feira, 19 de janeiro de 2012

Ave César!

Olhou para o lado e viu um dos bárbaros avançar com um machado de guerra que parecia pintado a sangue na direcção do seu irmão. Gritou por ele e lançou-se na sua direcção. O tempo parecia ter abrandado, cada passo era dado mais devagar que o anterior, cada silaba que saia da sua boca voava mais devagar. O bárbaro parecia imune ao abrandamento, seguia a correr, empunhando o temível machado.
Por entre os corpos dos que já tinham caído na batalha, o legionário corria desalmadamente, sentia que se o machado descesse a réstia de alma que sobrava nele ia abandoná-lo. Já tinha visto demasiados amigos morrer por causa de um império decadente, demasiados haviam dado o corpo e a alma para que a obra megalómana vivesse. Já tinha visto os pais morrerem queimados pelos que se diziam aliados. Já tinha visto o seu outro irmão trespassado por uma lança como se fosse um animal. Tudo o que tinha estava agora ameaçado por um machado ensanguentado.
Os poucos metros que o separavam do bárbaro pareciam as imensas leugas que separavam a Bretanha, onde agora corria, da sua amada Germânia.
Num grito atirou-se de espada em punho para cima do enorme bárbaro que tinha o tamanho de um urso e cabelos que pareciam a crina de um cavalo e que maneja o enorme machado como se de um pau se tratasse.
A espada atravessou-o. O olhar do gigante bárbaro transparece surpresa, com o calor da batalha nem o tinha visto chegar. Morre ali mesmo, aos pés do pequeno legionário, cai como se de uma árvore se tratasse.
Chegou tarde, a sua espada atravessou-o, mas não antes do machado ter feito o seu amado irmão em dois. Cai sobre os joelhos e brada a Júpiter e a Marte. Enraivece-se e fervilha de ódio. O resto de alma que em si havia tinha ido.
Arrumou a espada e pegou no seu defunto irmão. Carregando-o ao ombro entrou pela floresta hostil como se de casa se tratasse.
Cavou com as mão até que delas não se visse mais nada que não sangue, e destroçado enterrou o ultimo que lhe era querido. As lágrimas caiam em cima da armadura do irmão, o som que faziam tornava-se arrepiante, tal era o silêncio na floresta.
Ao acabar pôs-se de pé, limpou as lágrimas, sacudiu a terra, limpou a lâmina da sua espada. Deu um grito do fundo das entranhas que gelou a já silenciosa floresta e correu de volta o cemitério que o campo de batalha se tinha tornado.
Naquele dia nem um bárbaro voltou, fosse homem, mulher ou criança. Nesse dia um romano deixou de ser gente.

terça-feira, 17 de janeiro de 2012

Uma ou outra.

Das duas hipóteses que tenho, acabar o trabalho de Prótese Maxilo-facial e estudar Técnicas Laboratoriais de Ortodontia II, escolhi uma terceira. Não fazer absolutamente nada disso.
Ouvir música, ver o que há de novo no 9gag, escrever no blogue, ir buscar uma bola de gelado para comer no quarto (que com o aquecedor ligado já parece uma ilha nas Caraíbas... graças a Deus que é o senhorio que paga as contas...), arrumar a roupa que está em cima da cadeira faz já uma semana... tudo parece tão importante e interessante para fazer.
Até tenho a certeza que mal acabe de postar isto vou tirar uns minutos para pensar no sentido da vida ou para ir ver a tradução de uma música de uma banda lituana que um amigo meu postou no facebook. Tudo vai acontecer menos o que tem que acontecer.
É sempre assim.

quarta-feira, 11 de janeiro de 2012

É só mais uma história. Parte 1.

Toda a história começa com alguém a fazer alguma coisa sem qualquer importância. Esta não é excepção.
O João era um rapaz calmo, que gostava de origami. Acrescentava autenticas obras de arte feitas de papel à sua já bastante considerável colecção sempre que podia. Os animais eram os seus predilectos: tentar passar a vivacidade do animal para um pedaço de papel dobrado um milhão de vezes era o verdadeiro desafio. Esta história começa assim. Com o João a fazer origamis. Eram ursos. Castanhos e pequeninos. Sentado na sua secretária, num dia como todos os outros.
Fazia uma dobra a seguir à outra, parecia que já começava a ver os ursos a passear pela planície do teclado do computador ou a subirem à montanha das folhas de trabalhos por fazer. A meio de uma outra dobra qualquer ouviu alguém a subir calmamente os degraus que davam para o seu quarto. Fez-se um momento de silêncio. Todos conseguem descobrir quem vem a subir os degraus: pela velocidade, pelo arrastar dos pés, pelo peso que coloca em cada passada, por quão ofegante fica por causa da maldita asma.
Não reconhecia os passos. Deixou de fazer o origami desinteressante com que começamos a história. Ficou a olhar fixamente para a porta, esperando ansiosamente para saber a quem correspondiam os passos de velocidade média, pouco arrastados, que batiam na madeira como se fossem duas pedras e que pelos vistos não faziam a alma que subia as escadas ofegar. Na sua mente já pintava uma mulher alta e de pernas finas, que subia confiantemente os degraus com uns saltos fabulosos. Nem mais, nem menos.
A porta começa-se a abrir, o coração como que pára durante um cagagésimo de um segundo. A excitação apodera-se dele.
Ao ver a sua prima Ana entrar no quarto não reage. Não reage porque não a reconhece. Na semana anterior haviam passado 9 anos que não se viam. Ela era agora uma mulher feita, e ele um engenheiro que ainda vivia com os pais e que só saia de casa para trabalhar.
Mas para esta história ter um desenvolvimento interessante e onde podem acontecer coisas bonitas como é suposto, tem que haver uma revelação importante e que lhe dê um rumo.
Nesta história vão haver duas.
A primeira revelação é algo que ambos os intervenientes sabem, mas que até agora foi omitido a quem lê. O João e a Ana não são mesmo primos, são apenas dois jovens que foram criados juntos. Viviam porta com porta, eram inseparáveis. Na inocência que só as crianças têm começaram a tratar-se por "primos". A coisa pegou. Eram primos.
Volvidos 9 anos era tudo diferente. Ainda se conheciam como poucos e já não tinham a inocência que outrora tiveram. A Ana perdeu toda a timidez e tornou-se uma mulher moderna ao ir para a faculdade. O João continuou tímido, como acontece muito na área pela qual se aventurou.
Sentaram-se na cama que estava cheia de roupa que se encontrava num estado entre "usada" e "para lavar". Puseram a conversa em dia. Falaram por horas a fio. Olharam-se várias vezes timidamente nos olhos.
O dia avançava a passos largos para o fim, até que a Ana pegou carinhosamente na mão do João e disse-lhe: "anda, tenho uma coisa para te mostrar".


Por agora não me apetece continuar... quando me der na telha sigo com a história.

sexta-feira, 6 de janeiro de 2012

Talento.

Ando numa preguiça anormal. Não sei se por ter tanto para fazer ou se mesmo por talento natural para a coisa. Isto de ter muita coisa para fazer tem muito que se lhe diga. É chato, é cansativo e é desmotivante. Quantos mais volumes se acumulam na secretária, menos vontade há de olhar para eles. É como tudo o que existe em demasia, perde o interesse.

Voltando à preguiça, isto tem-me batido forte: tive um raio de umas férias ao grandes e nunca me apeteceu fazer nada relacionado com a faculdade. Quer dizer, gastei duas horas a fazer parte de um trabalho no último momento possível. Outra vez, não sei se deixo para o fim por preguiça ou se por saber que tenho melhores resultados a trabalhar sobre pressão.

Ainda esta madrugada estive a fazer 4 tabelas gigantes que tinham que estar prontas hoje, e verdade seja dita, fiz tudo bem e "num instante". Entretanto a entrega do trabalho foi adiada...

Em última análise, acho que o facto de deixar tudo para a última hora não tem a ver com preguiça, tem a ver com outra coisa qualquer. Chamemos-lhe talento(?).